Aldeia Maraka´nà: Disputas pelo território e narrativas

Fotos e reportagem por Bárbara Dias

Desde a ocupação do prédio que ficou abandonado por quase 30 anos, em 2006, a Aldeia Maraka’nà vem sendo alvo de disputas de narrativas por políticos e empresas, que tem um forte interesse econômico naquela região e pelos indígenas que querem criar um espaço de manejo autossustentável, de bem viver e de memória dos povos originários em meio do caos urbano da cidade do Rio de Janeiro. Após violentas tentativas de desocupação, a Aldeia Rexiste, e sua história se confunde com a própria história de resistência dos povos indígenas do nosso país.

Histórico do Prédio

O prédio construído em 1885 no terreno da Aldeia, foi sede do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) do Brasil, e em 1953, foi criado por Darcy Ribeiro, o Museu do Índio da América Latina, e de 1950 a 1970 abrigou a pós-graduação em antropologia da UFRJ. No ano de 1978, com a transferência do Museu do Índio, para o bairro de Botafogo, o prédio ficou abandonado até a sua ocupação por diversas etnias indígenas do Brasil em 2006.

Aldeia em Disputa

Conversamos com José Urutau Guajajara, um dos indígenas ocupantes da Aldeia, e ele nos relatou um histórico de ameaças e disputas que eles vem sofrendo desde que decidiram ocupar o prédio abandonado por quase 30 anos, em 2006. Logo após a ocupação, já em de 2007 o Governo Estadual demonstrou interesse na área, para a realização dos Jogos Pan-Americanos.

No entanto, foi somente em 2013, com a proximidade dos Megaeventos (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016) e sob forte influência de interesses econômicos de grandes empresários, políticos e empreiteiras em construir ali um estacionamento e um shopping, que o Governo de Sergio Cabral atacou mais frontalmente a Aldeia.

José Urutau Guajajara, ocupante da Aldeia Maraka´nà
José Urutau Guajajara, ocupante da Aldeia Maraka´nà

Segundo Urutau, o governo Cabral forjou documentos que comprovavam que ele havia realizado a compra do terreno do governo federal, e que era necessária a desocupação do mesmo, para o projeto dos megaeventos. Com o Estado estando de “posse” do terreno, no ano de 2013, Cabral mandou inclusive forças policiais atuarem na retirada dos indígenas da Aldeia Maraka´nà, de maneira violenta, e com uso de bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta, fato que tomou repercussão mundial e foi fortemente repudiado por diversos setores da sociedade.

Após essa desocupação, o terreno da Aldeia foi asfaltado e perdeu uma boa parte de seu tamanho original, no entanto, o projeto inicial de construção do shopping não foi adiante, e os indígenas voltaram a reocupar o local em 2016. O cenário político mudou com grande parte dos políticos do governo Cabral condenados e presos por corrupção, inclusive desvios e superfaturamento nas obras do Estádio do Maracanã.

Passados os Megaeventos e a condenação do governo Cabral e sua cúpula, o que poderia trazer tempos de paz à Aldeia, não se configurou realidade. Após as últimas eleições, vários políticos que tem como desprezo os Direitos Humanos, na figura maior de Jair Bolsonaro, e que atacam verbalmente os direitos dos povos tradicionais indígenas e quilombolas, deu o respaldo para que dois Deputados Estaduais do Rio de Janeiro Rodrigo Amorim (mesmo deputado que quebrou a placa da Marielle) e Alexandre Knoploch, se achassem no direito de começar uma verdadeira campanha de ódio contra os indígenas que vivem na Aldeia Maraka´nà, no entanto, os indígenas acreditam que por trás dessa ação, está novamente o interesse econômico na área.

O primeiro ataque foi em Janeiro de 2019 e o ultimo mais recente no dia 22 de março, onde os deputados entraram com coletes a prova de balas e seguranças armados, num tom discriminatório e disseminando o ódio. Os indígenas convidaram esses invasores a se retirarem e classificaram o episódio como uma grave agressão e incitação ao ódio, e contaram que foram agredidos verbalmente e fisicamente. No ultimo dia 26, acompanhamos a ida dos indígenas a ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), onde os mesmos foram cobrar providências dos deputados da casa sobre o ocorrido.

Visando aproximar a sociedade a sua causa e de desconstruir o discurso dos deputados que classificam a aldeia como “lixo urbano”, no último final de semana foram realizadas diversas atividades de limpeza, grafiti e plantio de mudas na Aldeia Maraka’nà, como o objetivo de fazer da Aldeia um território de bem viver. Fomos lá registrar essas atividades e conhecer um pouco mais da história da Aldeia, que vem promovendo na região uma revitalização e uso autossustentável em meio ao caos urbano da cidade do Rio de Janeiro.

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