Brumadinho: Dor, memórias e imagens – Um ano depois do crime socioambiental da Vale

Texto por Wagner Maia/Fotoguerrilha  – Imagem em destaque na capa por Bárbara Dias/Fotoguerrilha

 

Era uma fatídica sexta feira de 25 de janeiro de 2019, quando ouvimos nos noticiários a queda da barragem da empresa de minério Vale, no Córrego do Feijão em Brumadinho, uma das maiores empresas do Brasil e do mundo em minério. As dores que vimos pela televisão, nos fizeram quanto coletivo, Fotoguerrilha, ir além e buscar narrativas que fortalecessem as vidas locais, escutá-los, andar por mar de lamas que se encontravam as localidades atingidas pelo crime da Vale. O desafio feito pelo convite da fotógrafa Bárbara Dias em ir até Minas Gerais, Brumadinho para contar sob nossas lentes, as histórias que estavam sendo ditas nos jornais, nos motivaram a empreitada.

Saímos três dias depois do acontecido, sem saber como chegar. Quatro fotógrafos em busca de contribuir com a população, ajudar no que podíamos e sofrer junto com eles diante deste descaso. Chegamos à noite e não podemos fotografar o local afetado. Ao amanhecer, fomos em busca das histórias, ao chegarmos no local, os bombeiros iniciavam a busca por corpos, choramos ao ver nosso primeiro corpo sendo retirado em redes por bombeiros, nos colocamos no lugar dos moradores. Brumadinho depende da mineração, e as empresas lucram rios com a exploração da população.

Seu José que perdeu o filho no rompimento da barragem da Vale. Foto: Wagner Maia/Fotoguerrilha

Aos poucos, foram aparecendo histórias, como do menino que fora arrastado por 500 metros sendo sua roupa arrancada por galhos gigantes de arvores, quebradas pela força da lama, mas, sobreviveu. A história da  mulher que segurou na carroceria do caminhão como último recurso a vida e sobreviveu. Mas, ouvimos histórias tristes como do seu José, seu filho de 34 anos, morreu com a queda do refeitório na empresa, seu José nos contou que o amigo do seu filho, estava almoçando com ele, quando seu filho disse que ia lavar as mãos, esse ato, foi o suficiente para ele não sair com vida e seu colega ter a sorte em sobreviver. Seu José nos falava com olhos lacrimejados, a tristeza não o impediu em andar pelas localidades ajudando e dando apoio a quem precisava. Bárbara Dias, quem o entrevistava, escutava suas histórias minuciosamente, eu que os fotografei, não sabia como minha lente tinha tanta dificuldade em fazer um simples retrato, mas, com potência jamais vista.

Caminhamos em busca de outras histórias, as vezes não fotografávamos, sabíamos que o trabalho dos bombeiros, era desgastante, sofrido. Ao saírem da lama,  com ar de sofrimento, muitos ainda conseguiam esboçar um sorriso maroto diante das lentes que os incomodavam. Os chamados heróis da lama, empedrados, as vezes confundidos com a lama, sabiam quando o cano (instrumento utilizado na busca de vítimas) batia e sons diferenciados, que havia vítimas no local. Presenciamos mais de 17 corpos saindo da lama.

Bombeiros nas buscas por vítimas e sobreviventes do rompimento da barragem. Foto: Rodrigo Campanario/Fotoguerrilha

Foram três dias de muita luta, sofrimento, caminhamos sobre o mar de lama, dentro da represa, vimos caminhão revirado como boneco, mares de lama escorrendo, vítimas que ainda acreditavam na volta dos seus entes queridos. Autoridades governantes tentando amenizar a dor, as vezes sendo escorraçados pelas vítimas indignadas no local onde chegavam as notícias dos corpos. O último dia, marcou nossa ida a aldeia indígena, numa cidade vizinha a Brumadinho, município de São Joaquim das Bicas, onde passa o rio Paraopeba, afluente do São Francisco, contaminado pelos rejeitos da Vale e que teve sua morte anunciada o Paraopeba ainda tenta resistir como nos disse um pescador que nos atendeu. A tribo Pataxó, Nao Xohã, vivem do rio, ele como a natureza, são fontes de luz, vida e adoração, como mesmo nos disse um indígena, “homem branco vomitou lixo em nosso rio”.

Vimos as dores desta tribo, choramos juntos e fizemos o que sabíamos fazer, fotografamos, conhecemos a cultura até o momento afetada pelo crime da Vale. Ouvimos a Antônia Sousa, indígena matriarca que perdera um filho a três meses e agora vive com esse crime socioambiental, tentando se recuperar com a perda do rio Paraopeba. É meus amigos, foram histórias com muito amor e resistência, mas, que demonstra outros tipos de olhares sobre a notícia. A fotografia nos deu o papel importante de mostrarmos as histórias da humanidade por outros ângulos, ouvir as dores, saber que ainda há muito a se buscar. Depois de um ano passado, sabemos que mais de 242 mortos e ainda restando 28 desaparecidos segundo o site do G1, da Globo , nos dá a dimensão deste crime da Vale.

É meus amigos, finalizo esse texto com ar de lágrimas, revolta e ao mesmo tempo dever cumprido, sabíamos que não seria fácil o que encontraríamos lá, mas, buscamos através das lentes, contribuir com as causas sociais e como sempre acreditamos no futuro, deixamos um desejo e uma imagem de um indígena, ainda criança, brincando (veja essa foto na galeria abaixo) e desejando um futuro melhor, contra a ganância das grandes empresas que cometem crimes e deixam as populações sofrerem com suas mortes coletivas.

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