AS MÃOS QUE FECHARAM O CAIXÃO ERAM NEGRAS! A DOR QUE NÃO SE CALA TAMBÉM.

FOTOS E REPORTAGEM POR WAGNER MAIA/FOTOGUERRILHA 

As mãos que fecharam o caixão do querido músico Evaldo Rosa dos Santos eram negras. Perdidas numa imensidão do desespero de um último adeus a uma das pessoas mais fantásticas que esse mundo já teve. Essas palavras não são minhas, são de um amigo muito querido de Evaldo. Ele me disse as seguintes palavras, “Sabe aquela pessoa boa, então, Evaldo era essa pessoa”. Juro que essa foi uma das pautas que mais senti como fotógrafo nos últimos anos. Ela me fez lembrar ou melhor atualizar o quanto o direito de viver para nós negros, é bastante caro.

Os choros e os ecos de “o porquê fizeram isso conosco?” soavam como músicas de terror numa realidade sombria, em pleno século XXI. As autoridades, até num primeiro momento quiseram deslegitimar a vítima, o tratando como bandido em perseguição. Foram 80 tiros no carro do músico que estava acompanhado de sua família no último domingo em Guadalupe, região pobre do Rio. É, a realidade pode ser bem pior do que imaginamos. Seu filho no protesto de hoje, nos disse que 80 foi só no carro do seu pai, mas, acharam cerca de 200 capsula de fuzil no chão. A bala tinha endereço, cor e local, infelizmente Evaldo foi o próximo alvo, mas creio que não o último neste Estado e país genocida.

As autoridades governantes, tanto em âmbito estadual, quanto em federal, tentaram minimizar o caso. O presidente Bolsonaro, falara muito pouco sobre o assunto, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, disse que não é capaz de opinar sobre o caso, o mesmo que mencionava uma política de segurança pública a fim de mirar na cabecinha do bandido e pá. Agora, se cala diante das atrocidades cometidas pelo Exército Brasileiro.

As ruas não são seguras, ainda mais quando somos alvejados por militares, que usam da foça para combater em guerra. É, as mãos que fecharam o caixão, marcharam pelas ruas da Vila Militar em busca de respostas para tal atrocidade contra Evaldo Rosa dos Santos, não tiveram respostas.

Esse nó na garganta quando escrevo esse texto para o Fotoguerrilha, é parecido quando escrevi sobre o assassinato da Vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes em 2018, quando Claudia foi arrasta por Policiais Militares, na Zona Norte do Rio, quando Vinícius foi alvejado com um tiro de fuzil no peito. Segundo Anistia Internacional, em 2017, de cada 100 mortes por armas de fogo no Brasil, 77 eram negros. Já não tenho mais esperança de diminuição do racismo no Brasil e no mundo, talvez possamos continuar sobrevivendo neste mundo de maldade, pois, para os negros, viver, é duas vezes mais difícil que os brancos neste país decadente.

Por hoje, peço que Deus te receba bem Evaldo, meus sentimentos, não tivemos forças para te salvar. O mundo fica mais feio sem o sorriso que seus amigos disseram que você tinha, ficamos aqui, com esse Estado genocida, tentando sobreviver.

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