SOMOS NEGROS, CORREMOS DEVIDO AS EXECUÇÕES SUMÁRIAS DE UMA SOCIEDADE RACISTA

Por que corres Claudia, Marielle, Amarildo, Agatha, João Pedro, George Floyd, João Alberto?
Corremos, pois, temos poucos dias, anos e quem sabe minutos de vida. Não conseguimos respirar.
Os açoites, as chibatas, as carnes mais baratas no mercado.
A lógica mais cruel das prisões e os navios mais sombrios, fomos encurralados feito bichos.
Corremos para termos um suspiro de vida.
Nossa sorte é que não estamos sozinhos. Existe uma legião de resistências. Não nos deixem morrer em vão, obrigado por lutarem por nós

 

Texto escrito por Wagner Maia/Fotoguerrilha

Fotos por Pablo Washington/Fotoguerrilha

Ao pé da letra, talvez o verso acima pudesse ser contado por pessoas brancas, com seu passado apagado, sua história dilacerada e seus pertences jogados no lixo da história. Vez por outra, teríamos uma parcela da população chorando por todo esse apagamento, genocídio e uma insistente execução sumária. Podemos ir além, poderia ser uma menina branca, morta com um tiro de fuzil, ou um menino branco, classe média, morto também com um tiro de fuzil, quando caminhava a uma padaria para comprar pão para seus entes queridos, morreu, com uma moeda de um real entre seus dedos machados de seu próprio sangue, poderia ser.

Como resultado, teríamos políticas públicas para erradicar esse mal chamado racismo e genocídio. Mas, infelizmente os versos são de corpos negros, semelhantes a esse que vos escreve com lágrimas e uma dor no peito. Poucos textos já me fizeram sentir tanto aperto quanto esse, mas, chorar faz bem, demonstra que tenho compaixão por esses negros e negras dilacerados por uma sociedade racista.

 

Ato em São Paulo contra o racismo e em protesto à morte de João Alberto. (Foto: Pablo Washington/Fotoguerrilha)

Nossa vítima mais recente foi um ser humano negro chamado João Alberto, executado com socos, pontapés, enforcamentos, filmado com um deleite entre o amor ao próximo e a sede de exemplar uma sociedade que mandar executar negros. Somos 70% das mortes causadas por armas de fogo no país, segundo a Anistia Internacional, ocupamos poucos cargos nas lideranças e sequer entramos nas universidades, a menos que tenhamos políticas como as cotas. O que recebemos em troca? Corpos negros enforcados em supermercados como foi o episódio da rede de Supermercados Carrefour em Porto Alegre.

João Alberto foi linchado, enforcado, brutalmente assassinado por dois seguranças da rede de supermercado Carrefour. Não tiveram piedade, queriam mostrar para nós, negros, o lugar que deveríamos estar, como subalternos, aptos a serem mortos por forças repressoras. Mas, a morte de João Alberto não foi em vão. Resistimos e saímos as ruas em prol de justiça, ateamos fogo em algumas lojas desta rede de supermercado. Protestamos em todo Brasil, exigimos respostas das autoridades, que vez por outra, dizem que não há racismo no Brasil, como foi o caso do vice presidente general Hamilton Mourão, ao comentar o caso dizendo que a morte não teve racismo, pois, no Brasil não há racismo.

 

Manifestantes promoveram ação direta contra uma unidade do Carrefour, em São Paulo, para protestar contra a morte de João Alberto (Foto: Pablo Washington/Fotoguerrilha)

Os corpos dilacerados, enforcados, metralhados não se comparam a meia dúzia de lojas quebradas, mas, é o que conseguimos fazer em meio a um Estado racista, sociedade racista e uma parcela da população extremamente racista. Caminhamos com vocês, agora estrelas no céu. Suas mortes, nos impulsionam a agirmos ferozmente contra o racismo. Chego ao fim dessa escrita com um nó na garganta, sabendo que João Alberto não foi o primeiro e nem será o último a morrer barbaramente por uma sociedade e empresas racistas. Mas, meu coração enche de orgulho ao ver resistências, lutas e uma resposta rápida para essa sociedade que sequer tem orgulho de ter a maioria negra. Resistimos por vocês corpos negros, massacrados por uma sociedade punitivista.

 

Movimento negro e autônomos fizeram um ato e promoveram ação direta em São Paulo para protestar contra a morte de João Alberto, morto em uma unidade do Carrefour em Proto Alegre.

 

Manifestantes promoveram ação direta contra uma unidade do Carrefour, em São Paulo, para protestar contra a morte de João Alberto (Foto: Pablo Washington/Fotoguerrilha)

 

 

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