CORPOS NEGROS ATRAVESSADOS POR FOME, BALA E PANDEMIA

 A SAGA NEGRA EM SOBREVIVER NO BRASIL 

Texto de Wagner Maia

Fotos por: Bárbara Dias, Rodrigo Campanário, Hiago Farias, Isabela Naiara, Kauê Pallone, Lucas Novello e Vinícius Ribeiro.

A pandemia do coronavírus tem afetado a humanidade a tal ponto que reformulamos nossos afazeres do dia a dia. Não podemos sair para nos divertirmos, trabalharmos, estudarmos, ou até mesmo, um simples passeio ao ar livre. No mundo, são mais de três milhões de mortos. Desse montante, o Brasil desempenha a segunda maior taxa de mortes, com mais de 428 mil, atrás somente dos Estados Unidos com mais de 500 mil mortes. Entretanto, lá, o diferencial é que o governo tomou a frente, e tem vacinado milhões de pessoas diariamente, aqui, padecemos de um desgoverno sem tamanho. 

Ato em São Paulo. Foto: Lucas Novello/Fotoguerrilha

Então, vivemos numa igualdade de sofrimento? A resposta dura e crua é, não! Negros tem sido massacrados com tanta intensidade, que a pandemia talvez tenha somente agravado a dilaceração dos corpos negros no Brasil e no mundo, mas, aqui, ela é reverberada onde aproximadamente 78 em cada 100 mortes por armas de fogo, são de  corpos negros que tombam. 

Ato no Rio de Janeiro. Foto: Bárbara Dias/Fotoguerrilha

O Rio de Janeiro talvez seja a personificação dessa dilaceração dos corpos negros. Na primeira semana de maio de 2021, presenciamos um cenário de carnificina na favela do Jacarezinho, Zona Norte da cidade do Rio. Aproximadamente 29 pessoas foram assassinadas numa incursão da polícia civil carioca na favela. Sendo um policial morto, o que causou comoção de grande parcela da sociedade, e 28 outras pessoas mortas. 

Com a desculpa de serem traficantes ou envolvidos com o tráfico, a sociedade não teve pena dessas 28 pessoas. Nas redes sociais, expressões do tipo “Ali não foi chacina, mas, limpeza ou faxina no Estado”. Essas expressões colocam uma sociedade acostumada com genocídio, com liberdade para se matar, onde a exceção se torna regra e com aval do poder público. 

Ato no Rio de Janeiro. Foto: Vinícius Ribeiro/Fotoguerrilha

O governador do Rio, Claudio Castro, veio a público salientar o sucesso da operação, diversas mídias o acompanharam e destacaram o desempenho dos policiais em terem matado 28 pessoas num só dia. Assim, mortes de corpos negros alimentam políticas públicas e de segurança baseada num confronto direto onde o inimigo tem que ser aniquilado, com pseudo imaginação da sociedade limpa. 

O que restou para a favela do Jacarezinho, foi sair as ruas numa pandemia para protestar contra o genocídio do povo negro. Fizeram isso no dia seguinte à chacina e na própria favela, reuniram milhares de pessoas, cobrando apuração rigorosa das ações policiais. 

Ato em São Paulo. Fotos: Isabela Naiara/Fotoguerrilha

Nesta quinta-feira, 13 de maio de 2021, Dia da Abolição da Escravatura no Brasil, a população saiu às ruas do rio com os seguintes dizeres “Nem bala, nem fome e nem covid. O povo negro quer viver” . Sair nesta data da abolição da escravatura nos remete a nada comemorar, mas, lutarmos pelos nossos direitos, já que nós negros fomos libertos das senzalas e aprisionados nas favelas, vielas e periferias, sem nenhuma condição de sobrevivência e de uma vida digna. 

A favela desceu ao asfalto para lutarmos por sobrevivência, pelo amor ao próximo e principalmente pelo fim das chacinas nas favelas e periferias. Exigimos uma política pública que trabalhe com inteligência, que dê liberdade aos territórios favelados e periféricos e não a uma política de ferro e fogo, onde o maior prejudicado é a população residente nestas localidade. Para fugirmos desse “Hell de janeiro”, só a luta diária nos levará a um mundo melhor. Por enquanto, o que nos resta é chorarmos embora lutando, pela sobrevivência dos corpos negros e periféricos. 

Confira a cobertura que as fotógrafas e fotógrafos do Fotoguerrilha fizeram no Rio de Janeiro e em São Paulo:

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