ENTREGADORES – CRÍTICA EM 3 ATOS

A pandemia do novo coronavírus colocou os entregadores e os serviços de delivery no centro da pauta trabalhista na mídia e sociedade civil. Nesse contexto, de exploração da mão de obra de jovens, negros, periféricos, de uberização do trabalho e de descompromisso das grandes empresas com o bem viver dos colaboradores, surge a necessidade de pautar a questão dos Entregadores em todas as instâncias: populares, midiáticas, jurídicas, culturais, tecnológicas.

 

Texto de: Gisele Motta e Vinícius Ribeiro

Fotos: Vinícius Ribeiro

Vídeo: Lucas Novello e Vinícius Ribeiro

 

ATO 1

Uberização da classe trabalhadora

Durante o primeiro semestre de 2020, quando inicia a pandemia do novo coronavírus, acontece um lockdown nunca antes vivenciado pela minha geração. Os decretos governamentais fecharam a maioria das lojas, com exceção do “essencial”. Os restaurantes ficaram meses sem abrir, funcionando apenas as entregas, o sistema “delivery”. Essas novas regras impostas pelos Estados de todo o mundo aumentaram a demanda por compras online e por telefone e impulsionaram os serviços de entrega.

Os serviços de entrega de alimentos por aplicativos já apresentavam um aumento vertiginoso, desde que foram inventados no começo da década de 2000, sendo os principais o Ifood, o UberEats e o Rappi. O Ifood é uma empresa latinoamericana fundada em 2011; o Uber Eats é uma multinacional americana fundada em 2011 como desdobramento da Uber, fundada em 2009; E o Rappi é startup colombiana fundada em 2015. Empresas com menos de dez anos de funcionamento que hoje em dia, nas metrópoles, são consideradas serviços essenciais. A pandemia do coronavírus expôs isso de uma forma que nenhuma mídia ou analista social conseguiu. E humanizou: não só o serviço é essencial, mas os trabalhadores que o realizam também são. O que aconteceria se eles parassem? Não estão eles na linha de frente por nós, que podemos ficar em casa, em quarentena?

A Uber é referência no método utilizado para conceber o tipo de serviço de delivery de comida. O modelo de negócios é o seguinte: as empresas não se consideram empresas de entrega que contratam entregadores. Elas se posicionam como empresas de tecnologia que conectam usuários de serviços e prestadores de serviço. Ou seja, não há obrigação trabalhista, pois não há relação empregado-empregador. Entregadores e motoristas não são empregados da empresa, mas profissionais autônomos cadastrados em uma rede que os conecta à clientes. Esse novo modelo se aproxima do “empreendedorismo”, no qual o entregador seria um “empresário” que “pode escolher” através de qual empresa vai prestar seu serviço e quando trabalhar, usando seu transporte pessoal – ou alugado.

Esse fenômeno de modelo de negócio cresceu dos serviços de transporte para passageiros para entregas de comida e hoje em dia para todo tipo de serviço de delivery. Alguns especialistas têm chamado esse fenômeno de “uberização do trabalho”. Essa nova forma de fazer dinheiro – negócio – impacta de forma negativa principalmente os trabalhadores. Sem patrão, sem direitos trabalhistas, sem férias, sem salário, sem segurança e até mesmo sem reconhecimento de ser classe trabalhadora. Mas não há como enganar o mundo inteiro com narrativas distorcidas. Foram os próprios entregadores que revelaram a verdade gritando com a contranarrativa: nós somos trabalhadores sim, e somos também classe trabalhadora!

A pandemia do novo coronavírus colocou os entregadores e os serviços de delivery no centro da pauta trabalhista na mídia e sociedade civil. Nesse contexto, de exploração da mão de obra de jovens, negros, periféricos, de uberização do trabalho e de descompromisso das grandes empresas com o bem viver dos colaboradores, surge a necessidade de pautar a questão dos Entregadores em todas as instâncias: populares, midiáticas, jurídicas, culturais, tecnológicas. Através da autogestão, da união com outros movimentos sociais e instituições, de ações de paralisação como Breque dos Apps, de mobilização na rua, os entregadores conseguiram chamar a atenção da opinião pública para essa discussão essencial sobre trabalho. Buscam se organizar para denunciar seus não-patrões, exigir regulamentações do Estado, expor o racismo e o classismo dos novos modos operandis dos mercados. Seguimos nessa linha, de apoio a esse grupo social, e de crítica a esse novo modelo que, se pautando nos avanços tecnológicos, retrocede nos avanços humanistas.

 

Ato 2 

Arriscando minha vida para matar sua fome (e a minha!)

Era uma noite de sexta-feira, por volta de meia noite, e o entregador Bruno França carregava em sua bag uma cheirosa pizza. Negro, mais ou menos a minha altura, 1,78, nem gordo nem magro, cabelo enrolado, a fala suave contrasta com a minha, atropelada. Aparenta os 32 anos que tem. Paramos na frente de um condomínio na Lagoa, área nobre do Rio. Ele toca o interfone e entra com o lanche. Fico do lado de fora com as nossas bikes. Nos encaramos quando ele desce do prédio e sai pelo portão. Olhar cúmplice de quem sabe o que é o cliente não ir nem até a portaria. Só mais um. Bruno me diz que vai terminar o dia de trabalho. “Partiu pra casa”. Ele desliga os aplicativos e me mostra o ganho do dia: vinte e quatro reais. Mais de 40 km pedalados, seis horas na rua, marmita própria na bolsa. Com esse valor ele não compra a pizza que acabara de entregar.

 

 

Atualmente a taxa de desemprego no Brasil segundo o IBGE é de 13,8%(13,1 milhão de pessoas), a maior da série histórica, um reflexo da política neo-liberal do governo Bolsonaro. Nessa situação muitos dos desempregados começam nas entregas por aplicativos, como Ifood, Uber e Rappi. Tais sujeitos são, na maioria, jovens, negros, pobres. Mas não só isso. São pessoas, seres humanos, com sonhos, metas, dúvidas, e cansaço. Muito cansaço. Físico e mental, por conta da exploração capitalista que aflige a todos, mas especialmente a eles.

O sonho do Bruno a médio prazo é tirar carteira de motorista, comprar uma motocicleta e continuar as entregas de forma menos extenuante. O trabalhador na bike é o que mais sofre, pois além das baixas recompensas, dos caminhos tortuosos, e da falta de segurança,seu corpo vira máquina de circulação. Só que não. Não são máquinas. Pedalar cansa, dói, machuca. A longo prazo, o sonho do Bruno é mudar de atividade. Ele quer terminar a graduação em letras que faz na Universidade Federal do Rio de Janeiro e exercer a profissão de educador.

Para Bruno França, uma das questões mais urgentes é a reivindicação de Equipamentos de Proteção Individual (EPI ‘s) básicos para ciclistas como capacete, joelheiras, cotoveleiras, colete fluorescente e sinalizadores para as bicicletas. Ainda, os equipamentos de proteção para a atual crise sanitária que vivemos da pandemia do coronavírus: máscara e álcool em gel.

“A primeira coisa para melhorar nosso trabalho como entregador é a questão da segurança física. Todos os aplicativos, assim que você é permitido trabalhar, você tem que ter material de segurança, e não há. O aplicativo não dá nada. Ou seja, isso fere no que a gente tem de leis trabalhistas de acesso à segurança. Todo trabalho precisa ter um profissional que saiba lidar com a questão da segurança das pessoas envolvidas. E só existe alguma cobertura dos aplicativos quando você está fazendo a entrega, mas o deslocamento de um lugar para o outro, você não está coberto. Se você sofrer qualquer tipo de acidente, você não tem acesso a nada de pronto socorro, você realmente tem que se virar. “

 

 

Sobre os valores da entrega, acreditamos que nem é preciso situar o quanto é injusto. Parece tão óbvio. Mas Bruno explica, denunciando também o descaso com o bem estar dos entregadores: “Outra melhoria seria aumento do valor das entregas, eles lucram milhões e pagam muito mal. É extremamente precário, não tem lugar para ir ao banheiro, eles não conversam com os restaurantes para que tenhamos acesso à água e banheiro, etc. O que eu vi na minha vida de entrega aqui no Rio é apenas 01 lugar que tem cafezinho e acesso livre ao banheiro, com uma placa que diz que podemos entrar, sem constrangimento. Mas basicamente para usar banheiro e beber água, se você não leva água de casa, se você quer ter acesso ao banheiro, você tem que procurar por você mesmo, ir na rua, etc.”

“Outra questão de melhoria nas entregas é: se você rejeita uma entrega, eles já param de receber entrega. Ou seja, você vai para um lugar que pode ser de alto índice de violência você está sujeito ao cancelamento, eles excluírem sua conta ou você ficar um bom tempo sem receber chamadas. E a gente passa quatro, oito horas na rua sem chamadas. É um trabalho extenso e extremamente desgastante. E nesse sentido as empresas estão *cagando* para a gente. Basicamente nossas reivindicações são aumentar os valores, as rejeições não serem penalizadas com corte ou bloqueio de entregas e segurança.”

A falácia de que o entregador tem alguma autonomia não só distorce o processo de exploração, mas é perversa. Não há “escolha” na profissão de entregador. Nem de horário, nem de trajeto, nem de quando trabalhar. Porque para sobreviver, é preciso ser constante e submisso. “A gente não tem liberdade para escolher ou não uma entrega. A gente fica totalmente à mercê, se você rejeita uma entrega eles param de mandar entregas para você, é bizarro porque você não tem liberdade. E eles colocam como “você faz seu dia, no seu tempo”, mas isso não é verdade”

 

 

 

Ato 3 

Uma autonarrativa (Por Vinícius Ribeiro)

Quando vi a chamada da Redes da Maré para um tema relacionado a pandemia, eu não tive dúvidas que queria documentar entregadores de aplicativos. Não só pela uberização do trabalho e todo sistema que prejudica a qualidade de vida do trabalhador, seja a curto, médio, ou longo prazo, mas por eu ter sido entregador em 2019 e 2020 e experienciado isso na pele.

Em 2019 eu estava desempregado e sem muito horizonte na minha área. Resolvi fazer entregas. Paguei a assinatura da bike do Itaú, peguei uma bag com um amigo que também passou um período fazendo entregas, e lá estava eu pronto para fazer meu próprio horário de trabalho e aproveitar as promoções dos aplicativos. Mas não foi bem assim.

No meu primeiro dia, era um sábado a noite. Rodei as regiões entre Lapa e Botafogo. Comecei às 18 horas, pois já sabia que o horário da janta teria mais movimento e mais chances de trabalho para mim. Às 21 horas recebi meu primeiro e único pedido daquele dia, uma pizza média e uma brotinho doce, acompanhadas de refrigerante, da Parmê do Largo do Machado até um apartamento no Flamengo. Tive sorte de receber uma gorjeta e com essa entrega recebi dez reais. Meu único ganho de dinheiro desse dia. Paguei minha passagem para ir trabalhar e paguei pra voltar quando era 00 hora, me sobrando esse lucro de dois reais no meu primeiro dia de trabalho como “empreendedor”.

Na semana seguinte eu decidi trabalhar na Barra, pois morava próximo a uma estação do BRT e conseguiria ir e voltar sem pagar passagem. Nessa semana eu tinha 20 reais. Na Barra, as coisas são longe, as estações de bike também. Era um domingo e nos domingos a Rappi faz umas promoções planejando pagar um bônus a entregadores que façam uma certa quantidade de entregas em certo período. Aceitei uma “promoção” que me daria 30 reais de bônus se fizesse três entregas entre 19 horas e 23 horas. Três entregas em quatro horas parecia fácil.

Eu já tinha trabalhado à tarde, pedalado cerca de 30 km e recebido pouco mais de 20 reais. Estava sem comer há algumas horas desde que saí de casa. Fiz minha primeira entrega bem rápido e logo me chamaram para a segunda, já imaginava que pegaria 30 reais extra, mas a segunda entrega atrasou bastante. Tive que sair e procurar a estação de bicicleta (a bike do Itaú cobra cinco reais a mais se eu ficar com a mesma bike por mais de 1 hora) mais próxima, e como disse antes, na Barra as coisas são longe.

Quando saí para a entrega que tinha atrasado muito eu achava que não conseguiria mais o dinheiro extra, então fiz a entrega, restavam 15 minutos e eu precisaria retirar um pedido para receber, então o aplicativo tocou, aceitei imediatamente, quando vi a entrega deveria ser retirada no Bob’s do Recreio no posto 12, eu estava no posto 3 na Barra. Cerca de 16km de distância. Tive que cancelar a entrega e fui prontamente bloqueado pela Rappi acabando assim com qualquer chance de receber o bônus. Trabalhei de 13:00 até 23:00, pedalei cerca de 50km, voltei pra casa cansado, com fome, decepcionado e desmotivado.

Durante cerca de nove meses eu trabalhei como entregador e nunca ganhei em um dia mais de 50 reais. Pedalava cerca de 30 km diários. Só isso já cansa, imagina o resto. Com o tempo esse cansaço piora. E olha que, como diria o presidente, eu tenho histórico de atleta. Estive na Uber, Rappi e Ifood, como a maioria dos caras na pista. Essa última empresa dava um tempo específico para chegar no local da entrega, independente da sua distância, independente de ser uma moto ou uma bike. Tenso. Cruel. O jeito é correr no meio dos carros e se arriscar (?).

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